Sunday, October 13, 2013

Maria em pedaços



Há algum tempo eu não me vejo quando olho no espelho. Meu sorriso desapareceu, meu rosto traz marcas que eu não reconheço e a minha alma é pesada como nunca foi antes.
Eu não gosto de quem eu sou. Não gosto da pessoa em que eu me transformei e não sei como sair dessa roda viva, desse labirinto que me deixa exausta e sem esperanças - sem perspectivas.
Há tempos não sou a Maria do riso facil e das piadas sem fim. não sei onde ela anda. Não sei de quem se esconde.
A Maria que tomou se lugar é triste, tem o coração sombrio e medo constante de ser machucada. Essa Maria traz na bagagem a dor do mundo e a escuridão da noite.
Ela não é má, mas já não tem a bondade e a ternura da outra.
Ela carrega um peso que não reconhece, que parece não lhe pertencer - mas não consegue se livrar dele. O peso a prende a esse mundinho sem graça. Seus pés são pesados como chumbo.
Ela já não sonha como antes, não voa para longe. Não ri alto e nem passa a vida a procurar flores coloridas e perfumadas.
Maria é triste. Vive no seu casulo. tem medo da luz do sol, tem medo das borboletas que já foram suas amigas.
Maria olha pela janela e vê a vida lá fora, mas já não vê vida do lado de dentro.
Da janela para dentro só tem dor, só tem tristeza e ela já nem sabe de onde tudo isso veio, e nem como se livrar de tudo isso.
Maria vive das lembranças do passado. Lembranças de dias felizes.
Lembrança de uma Maria que não tinha medo de nada, de uma Maria que era leve, solta e cheia de vida.
Maria ouvia isso o tempo todo:
- Quanta vida, Maria, quanta energia!!
- Maria, só você mesmo. Quanta coragem!
- E que garra, Maria! Você é mesmo única.
Nada disso pertence á Maria de hoje. Essa, cheia de medos, de incertezas e de insegurança, cambaleia de um dia para o outro, esperando que as coisas se acertem, que a vida volte a ser colorida e doce.
No fundo, ela sabe que as coisas não funcionam assim. Ela sabe que a solução não vem de fora, que o remédio não vai cair do céu. Ela sabe. Mas Maria está paralisada. Ela já não confia nas suas decisões e tem medo dos proprios instintos - que sempre foram seus melhores conselheiros.
Maria tem medo.
Maria tem medo de ir embora e se arrepender. Tem medo de ficar e se afundar ainda mais.
Ela tem medo de não conseguir dar o próximo passo e tem medo que não haja chão para os passos seguintes.
Maria tem medo de perder as filhas, tem medo de ficar com as filhas, tem medo de se sentir sozinha e tem medo de continuar presa nesse novelo infinito.
Maria quer o sol, quer a liberdade da escolha, mas tem medo deescolher, tem medo de ser livre e não saber mais voar.
Maria pensa no passarinho que sai da gaiola de uma vida inteira e é vitima do primeiro predador na esquina.
O que ela queria mesmo, no fundo,e ra se sentir livre e leve onde ela está, com as pessoas que a cercam e o mundo que ela de certa forma escolheu para si.
Maria quer voltar a ser ela mesma. Sem medo que o seu mundo desabe amanha cedo, sem medo de armadilhas injustas.
Ela quer se jogar no mundo, se jogar na vida, ela quer se encontrar, ela quer ser feliz outra vez!

Sunday, September 1, 2013

Dia da Marmota, Maria?



A sensação que eu tenho é que eu vivo em um circulo gigante, em conatante movimento...e que de tempos em tempos, independente do que eu faça ou diga, eu acabo de volta no mesmo lugar, revivendo as mesmas sensações doloridas.
Raimundo e eu nos distanciamos. Eu constantemente me pergunto o que é que eu estou fazendo aqui, presa nessa bolha, querendo desesperadamente fugir.
Os pequenos prazeres que já me fizeram tão bem, hoje não são acessiveis ( minha massagem semanal, minhas visitas á manicure, meu café com as amigas, num dia sem graça) ou não fazem mais diferença ( eu acendo meus insensos, passo meus perfumes preferidos, tomo banhos de banheira, que já me deram tanto prazer...). Nada faz esse vazio ir embora do meu coração.
Hoje Raimundo disse que está preocupado comigo. Depois de uma briga longa e dolorida onde eu desenterrei todos os fantasmas do passado, ele disse que estä genuinamente preocupado comigo.
Disse que eu estou demorando muito para me adaptar a nossa nova realidade, e que eu "não sou assim".
Falou também que eu estou encolhendo, e que isso é contrario á minha natureza, por que eu tenho a tentencia a expandir, a ocupar mais espaço.

Pois é Raimundo, acho que você finalmente me quebrou. E eu não estou vendo muita saída para isso.
Acho que os anos de lascas arrancadas finalmente estão batendo na minha porta e cobrando o seu preço. As dores acumuladas, as mágoas jogadas prá debaixo do tapete, já não querem mais ficar lá escondidas.

Depois das traições, tudo tem uma cara nova, tudo tem um peso diferente. E o que era uma chateação, hoje é inadmissível. Inaceitável. Inegociável.

Severina, mãe de Raimundo vai comemorar bodas de ouro e está preparando uma grande festa para o ano que vem.
Meu estomago embrulha quando eu penso que vou ter que participar desse circo. Não tenho nenhuma vontade de estar lá e sei que a familia dele também não faz questão ( de coração) que eu vá. Mas como isso "não pegaria bem", a minha presença é exigida.
Eles nem cogitam que eu não vá.

E enquanto eu me preparava para o tormento de ser submetida a isso, a coisa piorou ainda mais. Além da festa para centenas de pessoas, o plano é continuar a comemoraçao com uma viagem em família. Um cruzeiro pelas bahamas talvez, ou uma Villa na Toscanna.

O casal idoso, os três filhos, as noras e todas as netas. 15 pessoas ao todo.

Tive enjoo quando Raimundo veio todo feliz, me dar "as boas novas". Sem pensar muito, respondi afobada: - Ah que otimo!! Vocês vão. Eu fico aqui tomando conta dos negócios. Podem ir tranquilos. E divirtam-se!

Eu realmente não quero ir.
Grande parte dos meus problemas e a causa do meu rompimento com a familia foram as constantes "viagens familiares" que me foram impostas.
Parece superficial, esnobe até. Eu sei. Mas eu pedi, implorei que Raimundo parasse de levar os pais em todas as viagens que nós fazíamos.
Em vão.
Viajamos frequentemente com eles, até que finalmente eu dei um basta, acompanhado de uma crise de grosseria e ma criaçoes que resultaram na quebra da minha relação com a familia dele, em plena Europa. Chutar o pau da barraca do exterior tem um ar blazé, eu sei...

Há dois anos não os vejo.Ano passado, tomei um rumo diferente. Raimundo e as Mariazinhas foram ao Brasil, eu fiz uma viagem sozinha pela Asia. Foi maravilhoso. Um encontro mágico comigo mesma.
 E não sinto a menor falta de passar momentos infindáveis com essa familia que não é minha. Sinto até uma certa leveza, um alivio. E o prospecto de ter que conviver com eles mais uma vez, em outra viagem, me apavora, me desespera.

Os 40 dias de Severina na minha casa ( Não contei? ela chega semana que vem - vem me visitar!), vão ser um otimo teste, uma boa indicação de quanto veneno eu vá ter que tomar para ser impedida de viajar para as Bodas e a viagem comemorativa.

Hospitais, preparem a minha cama, eu estou chegando!

Saturday, August 10, 2013

Maria submissa?

As vezes eu me sinto presa numa teia que me sufoca e me engole. Eu tento respirar, tento me soltar, mas ela me aperta cada vez mais, me espreme, esvazia meus sentimentos e apaga meus sonhos.
Raimundo tem se esforçado muito para ser um bom marido, um pai mais presente e mais participativo.
Ele tem sido carinhoso comigo, tem sido presente na minha vida.
Ele tem se imposto com as Mariazinhas, tem tentado de tudo!
Mas o meu medo é que seja mesmo tarde demais.
As vezes tenho flash backs de coisas que foram ditas, coisas que foram vividas.
Não me lembro de ver Raimundo realmente feliz há muito tempo.
Ele fica feliz quando consegue alguma coisa que quer, mas é uma felicidade fugidía, mais para alegria que para felicidade propriamente dita.
Eu não acho que ele "seja"feliz comigo.
Hoje, depois de muito tempo, eu disse que ia embora.
Mariazinhas não estão felizes, Raimundo não está feliz e eu, definitivamente não estou feliz. Talvez todo mundo se sinta melhor se eu simplesmente for cuidar da minha vida.
Talvez eu os puxe para baixo. Talvez eles me puxem. Talvez a dinamica seja tão doentia, que funcione como uma grande poça de areia movediça.
Pensei em ir embora. Não sei por que, mas a India me veio á cabeça.
Considerei fazer trabalho voluntário, trabalhar com os pobres, me reencontrar em uma sociedade muito mais espiritual do que a que eu vivo hoje.
Sonhei em largar tudo e ir para outro país, arrumar um trabalho, começar do zero.
Ponderei até em voltar para a casa dos meus pais, me esconder debaixo da asa do meu pai e ficar lá, até essa dor toda passar. Até eu conseguir enxergar um caminho - qualquer que seja ele.
Raimundo disse que eu não vou embora coisa nenhuma. Que eu falo essas coisas para magoá-lo. Que eu sei, e ele sabe que eu não vou a lugar nenhum, mas eu fico tirando lascas da nossa relação, inconsequentemente.
O que Raimundo não percebe é que eu quero desesperadamente ir embora. Me falta coragem, e eu nem sei por que. Não é medo. É essa inércia que me prende ao chão.
Faço contas, faço planos, tenho sonhos malucos onde eu moro numa comunidade hippie ou num apartamentinho no centro de uma cidade badalada. Nos meus planos eu sou feliz. E eu cuido do meu nariz, sem me sentir acuada, sem me sentir inadequada o tempo todo.
Nenhum deles está nos meus sonhos ou nos meus planos. Mariazinha dois poderia estar, ela seria benvinda, mas não acho que ela gostaria de vir. Acho que ela também seria mais feliz sem mim.
Mas Raimundo está certo.Eu não fui embora as vezes passadas, eu não vou embora dessa vez.
Eu vou ficar aqui, sabe-se lá por que, vivendo uma vida que não é a minha, uma realidade que eu não escolhi, mas aceitei, num mundo que eu não gosto, onde as pessoas mais próximas a mim não gostam de mim, e nem eu gosto delas. Onde o convívio é triste, apagado. onde não há alegria, muito menos felicidade.
Eu fico aqui, encolhida no meu cocoon, torcendo para a coragem de virar borboleta chegar.

Enquanto isso, as lágrimas correm pelo meu rosto e eu fico quietinha, no mesmo lugar de sempre.

Friday, June 14, 2013

Maria Dividida


 

Há tempos não passo por aqui. Há tempos não venho chorar as minhas pitangas.
Meses se passaram. Raimundo teve altos e baixos. Entrou embaixo da cama. Saiu. Voltou a entrar. E agora parece estar bem.
Nunca se sabe - Raimundo é dado á se esconder dos problemas.
Nesse meio tempo, pegamos as trouxas e nos mudamos de país.
O cenário é novo, tudo é diferente. Raimundo e eu estamos aprendendo a viver com as diferenças, descobrindo as peculiaridades do novo lugar, enquanto ajeitamos a casa e a vida para finalmente trazer as Mariazinhas para casa.
Mariazinha 1 ficou fora de casa quase 8 meses. Mariazinha 2, de férias, vai quase completar três.
Entre uma conversa e outra, Raimundo e eu decidimos, juntos que gostaríamos que as Mariazinhas viessem para casa sozinhas. Assim nós teríamos tempo de nos adaptar, de começar uma vida nova.
Comprar as ultimas coisas para a casa, conhecer a escola, arrumar a vida!
Severina, mãe de Raimundo, gosta muito de ajudar, e decidiu que viria com as pequenas, para ajudar na transição.
Raimundo e eu achamos melhor não. Achamos que a hora é de reconstruir os laços, de reforçar as raízes e fortalecer as relações desse núcleo familiar, que está tão machucado.
E assim ficou combinado.
O tempo passou, e ontem Raimundo recebe a ligação de que as passagens estão compradas. Mariazinhas virão em pouco mais de um mês. E Severina virá com elas!
Meu coração foi parar na boca.
- Como assim, Raimundo? Não falaste com Severina?
- Não tive coragem.
Saí catando os pedaços de mais uma promessa não cumprida, de mais uma covardia de Raimundo.
Com o coração doendo, aceitei a vinda de Severina.
Agora já não há mais o que se fazer...
Agora pela manhã Mariazinha 1 me liga, desesperada.
- Minha avó não para de chorar. Pede para o papai ligar para ela. Ela está precisando de carinho!
Na estrada com Raimundo há tempo demais, eu soube imediatamente o que aconteceu com Severina.
Raimundo ligou para ela e disse para ela não vir.
E agora a situação passou de ruim, para muito pior.
Laços se espatifaram e eu duvido que eles voltem a se firmar. Severina está magoada comigo, o marido de Severino deve estar enfurecido, Mariazinhas não conseguem entender de onde vem todo o drama e entre eu e Raimundo, a distancia aumenta...

Tuesday, January 8, 2013

Maria vai com as outras?



O tempo passou e eu andei sumida. Refazendo minha vida, retraçando meus caminhos. Passei por fases doloridas, tomei decisões difíceis, muito difíceis.
Perdoei Raimundo.
Me tornei mais uma vez, a Maria sombra, a Maria vai com as outras. A Maria que no final das contas, faz o que é esperado dela. depois de espernear muito.
Tomei a decisão de continuar nessa jornada pelas minhas filhas.
Fiz terapia. Viajei para clarear as idéias. Fiz meditação e aprendi a rezar.
Nada falou tão alto na minha alma quanto o pedido da minha filha. As Mariazinhas são para mim, mais do que tudo na vida, mais do que tudo no mundo.
E por elas, fico. Por elas, abraço essa jornada, continuo meu caminho.
E tento sair dessa batalha com o mínimo de machucados possíveis.
Raimundo está deprimido. Isso não é novidade alguma. Raimundo tem uma forte tendência á depressão, a querer jogar tudo pro alto.
Dessa vez, o que raimundo jogou pro alto, doeu no fundo da minha alma.
Raimundo deixou Mariazinha primeira ir morar com os avós.
Meu coração, que já tinha sido partido antes, sofreu mais um golpe.
E eu me calei. Aceitei a decisão, não tive forças para lutar.
Mariazinha primeira partiu.
E eu, que tinha ficado em casa por ela, fiquei sozinha, olhando para o ninho vazio.
Seis meses. A promessa é que ela volte em seis meses.
Por enquanto, fico aqui, embalando Mariazinha dois que sempre foi minha, quem eu nunca tive medo de perder...