Wednesday, May 30, 2012

Memórias que me perseguem


Sou casada há 17 anos. Meu casamento, como tantos outros que eu conheço, passou por altos e baixos, passou por chuvas e trovoadas e continuou, altivo, o seu caminho.
Mas isso é, na verdade, coisa do passado.
Há mais ou menos um ano e meio sofri o maior baque da minha vida. Raimundo, o homem com quem tenho trilhado essa caminhada, se apaixonou por outra mulher.
Fiquei sabendo da forma mais medíocre e mais comum possivel. Ele escreveu um e mail abrindo o seu coração a um amigo, e num ato falho, me entregou o i-pad, com esse mesmo e mail aberto.
Em principio, achei que esse amigo comum tinha nos mandado um e mail coletivo, e Raimundo, preguiçoso, preferiu me dar o e mail no computador dele, a reenviá-lo para mim.
Lêdo engano.
Já nas primeiras linhas do e mail, percebi que não era nada daquilo. Raimundo se dizia platonicamente apaixonado, dizia que estava preparada para largar a familia - isso mesmo, EU e as duas filhas e partir em busca dessa aventura. O único inconveniente é que essa mulher não lhe dava bola. Ñem notava a sua existência.
O amigo( que até então eu julgava amigo comum), respondia que ele era na verdade um cara de sorte, que depois de viver um casamento sem graça, uma rotina besta, lhe caá do céu a oportunidade de viver um romance, um amor, uma paixão.
Falava ainda da inconveniencia que era ter filhos, não que ele os tivesse, mas achava que coisa boa não poderia ser.
Eloquentemente discorria sobre as maravilhas da paixão e das oportunidades que se abriam, mesmo sendo Raimundo um quarentão. Veja bem, Raimundo, você está envelhecendo, talvez essa seja a sua última chance de ser feliz.
Tive falta de ar. Não, não é figura de linguagem. O ar literalmente me faltou e eu fui parar no hospital, pela primeira vez em 40 anos, fui parar num aparelho de inalação.
Ali, naquele dia 7 de fevereiro, não era so o ar que me faltava. Me faltavam respostas para centenas de perguntas, me faltava força e energia para lidar com a  situação e me faltava chão.
Há 17 anos, ouço que somos muito diferentes, que ninguém entende como esse casamento pode dar certo. Como é que duas pessoas tão diferentes conseguem viver e conviver durante tantos anos?
E eu, sempre fui a Maria das cores, a Maria das festas e a Maria do riso fácil. Sempre fui a alma das rodinhas, sempre fui referência.
Raimundo é um cara pacato, na dele, tranquilo. Raimundo vive trancado em si mesmo. Há muito desisti de tentar tirá-lo do casulo. raimundo é assim, fechado.
Se houvesse uma enquete e perguntassem para todas as pessoas que nos conhecem quem é que se enrabicharia por outra pessoa, tenho certeza que as respostas seriam unanimes. Maria, claro.
Mas Maria nao se enrabichou por ninguém. Maria passou 17 anos recusando convites indelicados de homens mal intencionados. Maria não via ninguém além de raimundo. Mesmo com suas diferenças, mesmo com seus conflitos, Maria estava ali para ficar.
Em 7 de fevereiro de 2011 meu mundo caiu, meu chão desapareceu, minha vida mudou.
E hoje eu não sei o que fazer com ela.
Lá se vão um ano e quatro meses. Já se foram muitas lágrimas, muitas tentativas de recomeço, alguns pedidos de perdão e muitas promessas.
Mas a imagem de Raimundo desbotou aos olhos de Maria. Ele já não é o mesmo, ele não tem o mesmo charme, e para dizer a verdade, não tem mais encanto nenhum.
O príncipe de Maria virou sapo. E ela não quer tentar beija-lo pra ver se o feitiço se quebra.
Maria talvez comece a procurar uma casa num brejo, para o sapo se sentir mais a vontade.

No comments:

Post a Comment