Há algum tempo eu não me vejo quando olho no espelho. Meu sorriso desapareceu, meu rosto traz marcas que eu não reconheço e a minha alma é pesada como nunca foi antes.
Eu não gosto de quem eu sou. Não gosto da pessoa em que eu me transformei e não sei como sair dessa roda viva, desse labirinto que me deixa exausta e sem esperanças - sem perspectivas.
Há tempos não sou a Maria do riso facil e das piadas sem fim. não sei onde ela anda. Não sei de quem se esconde.
A Maria que tomou se lugar é triste, tem o coração sombrio e medo constante de ser machucada. Essa Maria traz na bagagem a dor do mundo e a escuridão da noite.
Ela não é má, mas já não tem a bondade e a ternura da outra.
Ela carrega um peso que não reconhece, que parece não lhe pertencer - mas não consegue se livrar dele. O peso a prende a esse mundinho sem graça. Seus pés são pesados como chumbo.
Ela já não sonha como antes, não voa para longe. Não ri alto e nem passa a vida a procurar flores coloridas e perfumadas.
Maria é triste. Vive no seu casulo. tem medo da luz do sol, tem medo das borboletas que já foram suas amigas.
Maria olha pela janela e vê a vida lá fora, mas já não vê vida do lado de dentro.
Da janela para dentro só tem dor, só tem tristeza e ela já nem sabe de onde tudo isso veio, e nem como se livrar de tudo isso.
Maria vive das lembranças do passado. Lembranças de dias felizes.
Lembrança de uma Maria que não tinha medo de nada, de uma Maria que era leve, solta e cheia de vida.
Maria ouvia isso o tempo todo:
- Quanta vida, Maria, quanta energia!!
- Maria, só você mesmo. Quanta coragem!
- E que garra, Maria! Você é mesmo única.
Nada disso pertence á Maria de hoje. Essa, cheia de medos, de incertezas e de insegurança, cambaleia de um dia para o outro, esperando que as coisas se acertem, que a vida volte a ser colorida e doce.
No fundo, ela sabe que as coisas não funcionam assim. Ela sabe que a solução não vem de fora, que o remédio não vai cair do céu. Ela sabe. Mas Maria está paralisada. Ela já não confia nas suas decisões e tem medo dos proprios instintos - que sempre foram seus melhores conselheiros.
Maria tem medo.
Maria tem medo de ir embora e se arrepender. Tem medo de ficar e se afundar ainda mais.
Ela tem medo de não conseguir dar o próximo passo e tem medo que não haja chão para os passos seguintes.
Maria tem medo de perder as filhas, tem medo de ficar com as filhas, tem medo de se sentir sozinha e tem medo de continuar presa nesse novelo infinito.
Maria quer o sol, quer a liberdade da escolha, mas tem medo deescolher, tem medo de ser livre e não saber mais voar.
Maria pensa no passarinho que sai da gaiola de uma vida inteira e é vitima do primeiro predador na esquina.
O que ela queria mesmo, no fundo,e ra se sentir livre e leve onde ela está, com as pessoas que a cercam e o mundo que ela de certa forma escolheu para si.
Maria quer voltar a ser ela mesma. Sem medo que o seu mundo desabe amanha cedo, sem medo de armadilhas injustas.
Ela quer se jogar no mundo, se jogar na vida, ela quer se encontrar, ela quer ser feliz outra vez!