As vezes eu me sinto presa numa teia que me sufoca e me engole. Eu tento respirar, tento me soltar, mas ela me aperta cada vez mais, me espreme, esvazia meus sentimentos e apaga meus sonhos.
Raimundo tem se esforçado muito para ser um bom marido, um pai mais presente e mais participativo.
Ele tem sido carinhoso comigo, tem sido presente na minha vida.
Ele tem se imposto com as Mariazinhas, tem tentado de tudo!
Mas o meu medo é que seja mesmo tarde demais.
As vezes tenho flash backs de coisas que foram ditas, coisas que foram vividas.
Não me lembro de ver Raimundo realmente feliz há muito tempo.
Ele fica feliz quando consegue alguma coisa que quer, mas é uma felicidade fugidía, mais para alegria que para felicidade propriamente dita.
Eu não acho que ele "seja"feliz comigo.
Hoje, depois de muito tempo, eu disse que ia embora.
Mariazinhas não estão felizes, Raimundo não está feliz e eu, definitivamente não estou feliz. Talvez todo mundo se sinta melhor se eu simplesmente for cuidar da minha vida.
Talvez eu os puxe para baixo. Talvez eles me puxem. Talvez a dinamica seja tão doentia, que funcione como uma grande poça de areia movediça.
Pensei em ir embora. Não sei por que, mas a India me veio á cabeça.
Considerei fazer trabalho voluntário, trabalhar com os pobres, me reencontrar em uma sociedade muito mais espiritual do que a que eu vivo hoje.
Sonhei em largar tudo e ir para outro país, arrumar um trabalho, começar do zero.
Ponderei até em voltar para a casa dos meus pais, me esconder debaixo da asa do meu pai e ficar lá, até essa dor toda passar. Até eu conseguir enxergar um caminho - qualquer que seja ele.
Raimundo disse que eu não vou embora coisa nenhuma. Que eu falo essas coisas para magoá-lo. Que eu sei, e ele sabe que eu não vou a lugar nenhum, mas eu fico tirando lascas da nossa relação, inconsequentemente.
O que Raimundo não percebe é que eu quero desesperadamente ir embora. Me falta coragem, e eu nem sei por que. Não é medo. É essa inércia que me prende ao chão.
Faço contas, faço planos, tenho sonhos malucos onde eu moro numa comunidade hippie ou num apartamentinho no centro de uma cidade badalada. Nos meus planos eu sou feliz. E eu cuido do meu nariz, sem me sentir acuada, sem me sentir inadequada o tempo todo.
Nenhum deles está nos meus sonhos ou nos meus planos. Mariazinha dois poderia estar, ela seria benvinda, mas não acho que ela gostaria de vir. Acho que ela também seria mais feliz sem mim.
Mas Raimundo está certo.Eu não fui embora as vezes passadas, eu não vou embora dessa vez.
Eu vou ficar aqui, sabe-se lá por que, vivendo uma vida que não é a minha, uma realidade que eu não escolhi, mas aceitei, num mundo que eu não gosto, onde as pessoas mais próximas a mim não gostam de mim, e nem eu gosto delas. Onde o convívio é triste, apagado. onde não há alegria, muito menos felicidade.
Eu fico aqui, encolhida no meu cocoon, torcendo para a coragem de virar borboleta chegar.
Enquanto isso, as lágrimas correm pelo meu rosto e eu fico quietinha, no mesmo lugar de sempre.